Yvonne P. Mascarenhas
yvonne@ifsc.usp.br

Rose Marie Muraro, nome de solteira Rose Marie Gebara, filha de Fuad Gebara e Olga Mutran Gebara nasceu no Rio de Janeiro em 11 de novembro de 1930, de uma rica família libanesa, oriunda da cidade de Sahle, no Líbano e, nessa época, dona de uma das principais cadeias de lojas de tecidos da cidade: as Casas Gebara, onde trabalhavam seu pai e outros membros da família: seus tios e primos. Infelizmente, devido a uma quase cegueira congênita, ficou com apenas 5% de visão no olho direito e completamente cega no olho esquerdo.
Rose Marie passou os anos iniciais de sua vida no Rio de Janeiro; porém, em 1935, sua família mudou-se para São Paulo para que seu pai, Fuad Gebara, assumisse as atividades empresariais da família Gebara. Não consegui encontrar qual era a atividade a ser exercida mas, Felipe Pereira Loureiro em sua dissertação de mestrado, “Nos fios de uma trama esquecida: indústria têxtil paulista nas décadas pós-depressão (1929-1950)” relata que em 1928 existiam em São Paulo várias empresas produtoras de fios, entre as quais as Industrias Gebara S.A. que não é mais mencionada na dissertação, mas que deve ter sofrido com o período recessivo causado pela crise da queda da bolsa de N.Y., e que foi gradualmente superado pelas industrias têxtis paulista a partir de 1933. Assim, podemos supor que o pai de Rose Marie tenha se deslocado a São Paulo para trabalhar na recuperação da indústria da família Gebara. Em São Paulo, Rose Marie frequenta o tradicional Colégio Assunção, onde se alfabetiza. Em 1941, a família retorna ao Rio de Janeiro e Rose Marie prossegue seus estudos em um colégio da mesma ordem religiosa, o Colégio Assunção, onde, apesar da quase cegueira, desenvolve forte interesse por estudos e pela leitura de livros infantis, especialmente os de Monteiro Lobato.
Quando tinha apenas 15 anos, perdeu seu pai e uma séria disputa pela herança resultou na desconsideração de sua mãe como herdeira. Assim, Rose Marie assumiu a responsabilidade de ajudar sua mãe e cuidar de seus irmãos e, bem mais tarde, revelou em seu livro “Memórias de uma Mulher Impossível” que esse fato foi decisivo para sua decisão de lutar pelos direitos das mulheres.
Foi nessa época, quando ela tinha apenas 15 anos, que conheceu o então padre Hélder Câmara e ingressou na Ação Católica Estudantil e, sob sua influência, passou a participar intensamente de movimentos sociais cristãos que marcaram toda sua vida.
Apesar das dificuldades econômicas e de sua deficiência visual, conseguiu se educar e sua primeira escolha profissional foi estudar física, tendo sido aprovada, em 1949, no vestibular do curso de física da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, atual UFRJ. Rose Marie Muraro não concluiu o curso de física, tendo voltado seu interesse para estudos em ciências sociais e economia. Ela relata, em um de seus livros mais importantes, “Biografia de uma Mulher Impossível”, que sua formação em ciências e economia foi decisiva para sua atuação na promoção do feminismo e dos movimentos sociais.
Rose Marie, aos 20 anos, no início dos anos 50, casou-se com Aldo Muraro, ex-seminarista dominicano, e tiveram cinco filhos.

1967 – Rose Marie com os filhos André, Marcos, Cristina, Toninha e Verônica (no colo)
Depois de 23 anos de casados, se divorciaram. A forte formação católica de Rose Marie levou-a a manter o casamento com base estrita no dogma da indissolubilidade do matrimônio, consagrado pela Igreja Católica. Sua convicta identidade cristã gerou uma enorme tensão interna, mesmo considerando que o casamento com Aldo Muraro era infeliz e restritivo. O fim do casamento, aos 43 anos, a transformou em uma das maiores referências intelectuais do país.
Entre as décadas de 50 e 60, estabeleceu-se a ideologia que, mais tarde, colocaria Marie ao lado de Leonardo Boff e de outros teólogos que defenderiam a Teologia da Libertação. Esta corrente foi combatida por forças conservadoras que a acusavam de ser herética e inaceitável pela religião católica. Porém, como afirmavam seus seguidores, a sua essência nada mais é do que a Igreja dos pobres e para os pobres.
Em 1960, Rose Marie passa a escrever para jornais estudantis e é contratada pela União Católica de Imprensa. No ano seguinte, consegue uma vaga na Editora Vozes e, assim, leva a linha progressista da Igreja para essa editora católica. A interação de Rose com Dom Hélder Câmara, seu mentor na juventude, introduziu-a no meio católico progressista e aproximou-a de diversos religiosos e intelectuais ligados à renovação da Igreja. Graças à reputação que adquiriu nesse ambiente, ela foi inicialmente convidada a trabalhar na revista franciscana Painel Brasileiro. Em seguida, em 1961, recebeu um convite de Frei Ludovico Gomes de Castro, novo diretor da Editora Vozes, para assumir a edição de livros voltados às áreas culturais e sociológicas da Igreja, de 1962 a 1985. Permaneceu na editora por 25 anos trabalhando com seu amigo e companheiro de luta, Leonardo Boff.
Depois de ingressar na Vozes, Rose transformou profundamente a editora. Sob sua coordenação editorial, o catálogo passou a incluir obras de sociologia, política, feminismo e, posteriormente, de Teologia da Libertação. Ela trabalhou durante 17 anos ao lado do frei Leonardo Boff e, das mãos de ambos, iniciaram-se os dois movimentos sociais católicos mais importantes do Brasil, no século XX: o movimento de emancipação das mulheres e a teologia da libertação, que, até hoje, é base da luta pelos oprimidos e foi ainda responsável pela publicação, na Editora Vozes, de autores progressistas como Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso.

Foto de Leonardo Boff e Rose Marie durante uma entrevista.
A adoção da Teologia da Libertação leva Rose Marie a iniciar sua luta pela liberação da mulher, principalmente depois de receber, no começo dos anos 1960, da freira católica Madre Cristina, o livro “A Mística Feminina”, de Betty Friedan, que narra os processos pelos quais a sociedade capitalista tenta relegar as mulheres aos papéis de mães e esposas. Este livro foi o primeiro contato de Rose Marie Muraro com o feminismo, já amplamente divulgado nos EUA e na Europa, e ela decidiu publicá-lo no Brasil em 1970.
Em 1966, publicou seu primeiro livro, ‘Mulher na Construção do Mundo Futuro’, e, dois anos depois, seu segundo, ‘Automação e o Futuro do Homem’. Em 1969, assumiu a posição de editora-chefe da Vozes; com isso, levou a editora a um novo rumo, além dos livros tradicionais, ao publicar, em 1970, o seu livro ‘Libertação Sexual da Mulher’, Petrópolis: Vozes,1970. 166p.
O Santo Ofício (Congregação para a Doutrina da Fé, então chefiada pelo Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI) considerou as discussões sobre a libertação do corpo, o orgasmo feminino e o questionamento dos dogmas morais católicos uma “afronta à doutrina cristã”. O descontentamento com o livro de 1970 se transformou em ação punitiva direta quando Rose Marie insistiu na temática e, em 1985, lançou o livro complementar “Sexualidade, Libertação e Fé: Por uma Erótica Cristã”.
O autoritarismo do governo brasileiro da época da ditadura militar (1964 a 1988) levou, por meio de vetos censórios em 1975, à proibição de publicação e circulação de dois livros de Rose Marie Muraro, a saber, “A Mulher na Construção do Mundo Futuro” (primeira edição em 1966) e “A Automação e o Futuro do Homem” (1968).
Rose Marie foi demitida do cargo que ocupava na VOZES no segundo semestre de 1986. O desligamento ocorreu sob pressão do Vaticano e do Papa João Paulo II, devido ao teor progressista de suas obras sobre o corpo e o papel da mulher na sociedade. A gota d’água foi a publicação do livro “Sexualidade, Libertação e Fé: Por uma Erótica Cristã” (1985). A obra rompia com a moralidade tradicional da Igreja Católica ao defender uma ética baseada na vivência plena e no fim de relacionamentos pautados apenas no sofrimento.
Frei Leonardo Boff, como teólogo principal da Editora Vozes e amigo de Rose Marie, assumiu a defesa da escritora perante as autoridades da Igreja, mesmo sabendo que ele próprio já estava sob a mira do Vaticano (tendo recebido a punição de “silêncio obsequioso” em 1985 por suas próprias obras). Ele argumentou que o trabalho de Rose Marie não feria a fé cristã, mas representava uma evolução necessária. Ele defendia que a Igreja precisava compreender a realidade científica e social das mulheres em vez de se fechar em dogmas europeus abstratos.
Ao manter-se firme na defesa do pensamento feminista e libertador de Rose Marie, Leonardo Boff acabou sendo punido, junto com ela, e também afastado de suas funções na Editora Vozes pelo Vaticano em 1986. O motivo: a defesa da teologia da libertação.
Dois anos mais tarde, em 1987, Rose Marie Muraro descobre um câncer que quase lhe tira a vida, mas se submete a uma cirurgia difícil que a salva. Recuperada da cirurgia, funda a Editora Rosa dos Tempos, a única editora dedicada ao estudo de gênero na América Latina, tendo como sócias a Editora Record, Laura Civita, Ruth Escobar e Neuma Aguiar. Neste selo, publica sua autobiografia ‘Memórias de uma Mulher Impossível’, que resultou de gravações feitas em 1997, quando passou um semestre dando aulas na Temple University, uma renomada universidade pública americana localizada na cidade da Filadélfia, no estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos.
Rose Marie Muraro continuou ativa publicando e participando de encontros, entrevistas e palestras no Brasil e no exterior. Durante sua vida, publicou mais de 40 livros e atuou como editora de 1600 títulos, quando foi diretora da Editora Vozes. Recebeu inúmeros prêmios e homenagens, entre os quais o Prêmio Teotônio Vilela do Senado Federal, o Prêmio Bertha Lutz (2008) e vários títulos honoríficos concedidos por instituições culturais e legislativas. Pela Lei nº 11.261, de 30 de dezembro de 2005, foi oficialmente nomeada Matrona do Feminismo Brasileiro.
Em meados da década de 1990, aos 66 anos, recuperou parcialmente a visão após uma cirurgia cujo bom resultado se manteve apenas por alguns anos. Faleceu aos 83 anos, em decorrência de câncer na medula óssea, deixando cinco filhos, doze netos e quatro bisnetos. Seu legado intelectual é preservado pelo Instituto Cultural Rose Marie Muraro (ICRM), criado em 2009, responsável pela guarda de um acervo superior a quatro mil publicações listadas pela Academia Líbano-Brasileira, na qual é Patrona da cadeira 03, seção Letras.
Em 2014, a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República criou o “Prêmio Rose Marie Muraro: Mulheres Feministas Históricas” que visa reconhecer mulheres com mais de 75 anos e organismos que lutam ou lutaram pela cidadania e pelos direitos femininos.
Rose Marie Muraro deixou um enorme exemplo de superação e de infatigável luta pela causa dos direitos da mulher.
Referências:
- Obituário – GÊNERO | Niterói | v.14 | n.2 | p. 175- 177 | 1.sem.201
https://revistaeixo.ifb.edu.br/index.php/revistaeixo/article/download/31/19 - Nos fios de uma trama esquecida: a indústria têxtil paulista nas décadas pós-Depressão (1929-1950)
https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-11072007-102513/publico/DISSERTACAO_FELIPE_PEREIRA_LOUREIRO.pdf
- Memórias de uma Mulher Impossível, Rose Marie Muraro. Livro Impresso – Editora Rosa dos Ventos, 1999.
- ESTUDOS FEMINISTAS: RELAÇÃO ENTRE A CONSTRUÇÃO DE UM CAMPO TEÓRICO-EPISTEMOLÓGICO E AS FORMULAÇÕES DOS CONCEITOS DE GÊNERO
https://revistaeixo.ifb.edu.br/index.php/revistaeixo/article/view/31
- Revista de Estudos Culturais – Edição 9 (2024) – EACH USP – São Paulo
https://revistas.usp.br/revistaec/pt_BR/issue/view/13538/3116
- KAMILLA MORAES SORAGGI “O NASCIMENTO E ASCENSÃO DE UMA “BRUXA”: O FEMINISMO DE ROSE MARIE MURARO (1970- 80)” Rio de Janeiro 2021
https://www.unirio.br/cchs/ppgh/producao-academica/dissertacoes-de-mestrado-e-egressos-pasta/arquivos/SORAGGIKamilla.Dissertao2021.Versofinal.pdf
- Leonardo Boff “Rose Marie Muraro: a saga de uma mulher impossível”.
https://leonardoboff.org/2014/06/22/rose-mrie-muraro-a-saga-de-uma-mulher-impossivel/
- Rosale de Mattos Souza e Shirley Cavalhêdo Franco, Representação subversiva de Rose Marie Muraro nos arquivos e no movimento feminista do Brasil, Ágora: Arquivologia em debate, Florianópolis, v.34, n. 69, p. 01-22, jul./dez. 2024
- Revista Subjetiva LUTE COMO UMA GAROTA: Rose Marie Muraro; May 30 2018
https://medium.com/revista-subjetiva/lute-como-uma-garota-rose-marie-muraro-7d2f198ffe6c
- Academia Líbano brasileira “Patrona Rose Marie Muraro”
https://academialibanobrasil.com.br/portfolio/rose-marie-muraro
- Instituto Cultural Rose Marie Muraro
https://www.atados.com.br/ong/instituto-cultural-rose-marie-muraro
