Yvonne P. Mascarenhas
yvonne@ifsc.usp.br

Embriologista e enfermeira Jean Purdy
Jean Marian Purdy nasceu em Cambridge, Inglaterra, em 25 de abril de 1945 e faleceu precocemente aos 39 anos, em 16 de março de 1985. Entre 1956 e 1963, cursou o ensino médio na Cambridgeshire High School, período em que se destacou tanto pela dedicação aos esportes quanto pela atuação como violinista na orquestra da escola. [1]
Após concluir o ensino médio, decidiu seguir a carreira de enfermagem e ingressou no Hospital de Addenbrooke, em Cambridge. Ao finalizar sua formação e obter o registro profissional como enfermeira, Jean Purdy passou a trabalhar no Hospital Geral de Southampton, situado a cerca de 205 km de Cambridge. No entanto, movida pela forte saudade da família, retornou posteriormente à sua cidade natal e transferiu-se para o Hospital de Papworth.
Em 1968, Jean Purdy tomou uma decisão que marcaria definitivamente sua trajetória profissional e científica: aceitou o cargo de assistente técnica de pesquisa do fisiologista Robert Edwards, no Laboratório de Fisiologia da Universidade de Cambridge. Nesse mesmo ano, o médico obstetra e ginecologista Patrick Steptoe, responsável por introduzir no Reino Unido a laparoscopia, técnica cirúrgica ginecológica inovadora, iniciou uma colaboração fundamental com Robert Edwards. Formou-se, assim, a equipe responsável por um ambicioso programa de pesquisa cujo objetivo era o desenvolvimento da técnica de fertilização in vitro (FIV). [2]

Edwards, Purdy e Steptoe, foto em Bourn Hall, 1981 (courtesy Bourn Hall Clinic).
Embora Edwards já tivesse realizado com sucesso esse procedimento em pequenos animais, a investigação de sua viabilidade em seres humanos teve início naquele período, em um pequeno laboratório instalado no Oldham & District General Hospital, operando com recursos financeiros extremamente limitados.
Essa técnica baseia-se na fertilização de óvulos por espermatozoides fora do organismo humano, seguida da transferência posterior dos embriões para o útero da paciente. O programa de pesquisa revelou-se de extraordinária relevância, tanto do ponto de vista científico quanto por suas profundas implicações práticas e humanitárias, especialmente no tratamento de mulheres com dificuldades para engravidar, condição frequentemente associada a intenso sofrimento emocional e frustração pessoal.
O sucesso desse empreendimento exigiu grande persistência da equipe ao longo de vários anos de trabalho intenso, durante os quais foi necessário estabelecer, de forma rigorosa, todas as condições experimentais, químicas, biofísicas e biológicas, indispensáveis à viabilidade e à eficácia do procedimento.
A participação de Jean Purdy, cristã praticante, no projeto de fertilização in vitro foi duramente criticada por sua mãe, Gladys Purdy, que, por motivos religiosos, chegou a ponto de expulsá-la de casa caso ela continuasse a trabalhar no projeto. Todos os argumentos de Jean, tentando demonstrar que a fertilização in vitro era apenas outro recurso da ciência para beneficiar mulheres que não conseguiam conceber, da mesma forma que o uso de óculos auxilia pessoas com deficiência visual, foram inúteis e ela, apesar dessa triste consequência em sua vida pessoal, se recusou a abandonar seu grupo de pesquisa mantendo-se firme em sua convicção científica e humanitária.
Para a realização do trabalho, o grupo de pesquisa selecionou cerca de dez mulheres férteis, porém com dificuldades para engravidar, dando início a uma série de experiências que envolviam várias etapas cuidadosamente coordenadas: coleta e seleção dos espermatozoides, coleta de óvulos por laparoscopia, fertilização in vitro, observação das fases iniciais do desenvolvimento embrionário e, caso todas essas etapas fossem bem-sucedidas, a transferência dos embriões para o útero da paciente.
O acompanhamento rigoroso de todas essas etapas coube, em grande parte, a Jean Purdy, responsável não apenas pelos aspectos técnicos do trabalho laboratorial, mas também pelo cuidado, pela empatia e pelo apoio às pacientes durante o longo período, de quase dez anos, em que o procedimento repetidamente falhou. Ao longo desse tempo, entretanto, a técnica foi gradualmente aprimorada, até culminar no nascimento, em 1978, do primeiro bebê concebido por fertilização in vitro, uma menina que chamaram de Louise Brown. Edwards deu a esse bebê o nome de Joy, palavra em inglês que significa alegria, pois certamente seria o que traria no futuro, tanto para a equipe médica quanto para os inúmeros casais que enfrentavam dificuldades para conceber filhos. [3]

Com o expressivo aumento no número de pacientes após o êxito da primeira fertilização e o nascimento do bebê, bem como diante da necessidade de formar médicos especialistas na nova técnica, Edwards, Steptoe e Purdy fundaram, em 1980, a Bourn Hall Clinic, em Cambridgeshire. Patrick Steptoe exerceu o cargo de diretor médico da clínica até sua morte, em 1988. [5]

Bourn Hall Fertility Clinic
No dia 7 de outubro de 1984, nascia Anna Paula Caldeira, o primeiro bebê concebido por Fertilização In Vitro (FIV) no Brasil. O procedimento, realizado seis anos após a primeira FIV mundial, no Reino Unido, marcou o início de uma revolução na medicina reprodutiva do país.[6]
Segundo uma visão geral criada por IA estima-se que mais de 13 milhões de bebês já nasceram em todo o mundo por meio da fertilização in vitro (FIV) e outras tecnologias de reprodução assistida (TRA) desde o nascimento do primeiro “bebê de proveta” em 1978.
Os extraordinários resultados alcançados pela técnica de FIV, com a participação dedicada e generosa de Jean Purdy, merecem, sem dúvida, que ela seja lembrada e honrada na história da medicina e por todos os casais que tiveram a alegria de ter filhos por esse método.
Reconhecimento
Apesar de ter desempenhado um papel fundamental no estabelecimento do método de fertilização humana in vitro, tendo participado como coautora de cerca de 26 artigos científicos, a contribuição de Jean Purdy foi praticamente ignorada, provavelmente devido ao seu gênero, à sua morte prematura em 1985 e, apesar de ter atuado como embriologista e enfermeira, ter sido contratada como técnica de laboratório.
Edwards recebeu o Prêmio Nobel em Fisiologia e Medicina em 2010 que não incluiu Steptoe devido à sua morte em 1984, aos 74 anos, e ao fato de que o prêmio Nobel não ser atribuído postumamente. [7]
A importância da contribuição de Jean Purdy, apesar de fortemente recomendada por Edwards e Steptoe em muitas oportunidades, só foi reconhecida bem mais tarde em várias ocasiões:
Em 2015, por insistência de Robert Steptoe, filho de Patrick Steptoe e membro da Royal Society of Biology, uma placa em reconhecimento à contribuição de Jean Purdy foi descerrada em seu túmulo.
Em 2018, para comemorar o 40º aniversário da primeira FIV, foi descerrada uma placa na entrada principal da Bourn Hall Clinic, em homenagem a Jean Purdy, enfermeira e embriologista, participante da criação da FIV e cofundadora da Bourn Hall Clinic. Nessa placa memorial está gravado: “Jean Marian Purdy. Cofundadora da Clínica Bourn Hall. Primeira embriologista do mundo e pioneira da fertilização in vitro. 25 de julho de 1945 – 16 de março de 1985.” A figura abaixo mostra o professor Sir Andrew Steptoe e o deputado Michael Meacher descerrando a placa. (Imagem: Gary Louth) [8]

Em outubro de 2018, o University College London, que faz parte da Universidade de Londres, criou o Prêmio “Jean Purdy Award” a ser concedido a estudantes de destaque do programa de mestrado em pesquisa em Ciência Reprodutiva e Saúde da Mulher.
A importância da participação de Jean Purdy na criação da FIV foi reconhecida em obras ficcionais tais como:
Peça teatral “A Child of Science”, de autoria de Gareth Farr, estreada no Bristol Old Vic em 2024.
No mesmo ano, foi lançado o filme JOY, que apresenta todos os desafios que Edwards, Steptoe e Purdy venceram até o nascimento do primeiro bebê de proveta, em 1978. Esse filme está disponível na Netflix.
Referências:
[1] Dados biográficos de Jean Purdy
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Purdy
[2] A importância do embriologista na reprodução assistida
[3] [4] Sobre o nascimento do primeiro bebê gerado por inseminação in vitro
[3] https://en.wikipedia.org/wiki/Louise_Brown
[5] Jean Purdy, IVF pioneer and co-founder of Bourn Hall Fertility Clinic
https://www.bournhall.co.uk/fertilityblog/jean-purdy-ivf-pioneer/?utm_source=chatgpt.com
[6] Primeiro bebê concebido por inseminação in vitro no Brasil
[7] Outorga do Prêmio Nobel e outras honrarias a Robert Edwards
