Carol Greider, Prêmio Nobel de 2009 pela descoberta da função dos telômeros, as pontas protetoras dos cromossomos

Carol Greider com um frasco de cultura de células cancerosas de rato, para verificar como os telômeros desses cromossomos se apresentam alterados. © Matt Roth

Carol Greider nasceu em 15 de abril de 1961, em San Diego, Califórnia, nos EUA. Seus pais eram professores universitários, o pai, físico, e a mãe, bióloga. Infelizmente, perdeu sua mãe aos sete anos de idade. Inicialmente, teve dificuldades na escola devido à dislexia. Por essa razão, Carol enfrentou grandes dificuldades na alfabetização. Ela superou um problema neurológico que impede o paciente de associar letras a palavras e fonemas, e de soletrar. Venceu essa dificuldade ao relacionar a imagem gráfica de cada palavra escrita à palavra falada. De grande ajuda para superar esse problema foi o apoio que recebeu de sua professora de biologia, que, inclusive, inspirou seu interesse nessa área da ciência.

Apesar de seu esforço para superar a dislexia, Carol concluiu o ensino médio com notas relativamente baixas e teve dificuldade em ser aceita em várias universidades às quais se candidatou. Felizmente, depois de muitos exames, foi aceita no curso de Biologia Marinha da Faculdade de Estudos Criativos da Universidade da Califórnia, Campus de Santa Bárbara, onde foi orientada por uma amiga de sua mãe, Beatrice Sweeney, que a aceitou como membro de seu laboratório. Carol se adaptou rapidamente às atividades de pesquisa nesse laboratório, na feliz convivência com sua orientadora e os demais colegas. É então que ela obtém bons resultados nas atividades experimentais, cuja avaliação era feita com base nos resultados dos experimentos, e não pela avaliação de testes.

Após concluir sua graduação, Carol passa um ano na Alemanha para aprender alemão e estagiar em um dos laboratórios do Max Planck Institute for Biophysical Chemistry, e decide que deveria fazer pós-graduação. Voltou aos EUA e, novamente, sua dislexia foi um obstáculo à aceitação. Suas notas eram insuficientes para a maioria dos oito programas de pós-graduação a que se candidatou, mas, finalmente, foi aprovada no Caltech (California Institute of Technology), onde foi examinada pessoalmente por uma comissão e teve oportunidade de revelar sua dificuldade em ser bem-sucedida nos testes devido à sua dislexia. Foi também aceita pela Universidade da Califórnia em Berkeley (University of California, Berkeley).


Sua escolha recaiu em Berkeley porque, ao visitar os laboratórios de pesquisa em biologia dessa universidade, ela se impressionou muito com a pesquisa que Elizabeth Blackburn realizava sobre os telômeros, desenvolvida desde 1978 em conjunto com Joseph Grafton Gall, da Yale University, outro cientista que dedicou grande parte de sua vida ao estudo da estrutura e da função dos telômeros. Juntou-se então ao grupo de pesquisa de Blackburn e aí realizou seus estudos sobre a estrutura e a função dos telômeros, que constituíram o tema de sua tese.


Para que o leitor avalie a importância dessa escolha, é necessário esclarecer o que são os telômeros. Está muito bem estabelecido que o código da vida nos seres vivos do nosso planeta é uma longa molécula denominada DNA (ácido desoxirribonucleico) na qual estão codificadas todas as estruturas moleculares das proteínas. Os genes são segmentos de DNA que contêm o código genético para uma proteína específica. Os cromossomos, partículas de constituição relativamente complexa que se situam no interior das células, contêm os genes de cada indivíduo e, desse modo, são responsáveis pela transmissão das características genéticas dos seres vivos. Seu número é variável e, na célula de cada ser humano, há 23 pares de cromossomos, sendo um herdado do pai e o outro da mãe.
Certamente, qualquer dano aos cromossomos acarreta problemas na gestação do feto e na manutenção da saúde do indivíduo e, por essa razão, os cromossomos devem ser protegidos por mecanismos biológicos reparadores. Tais mecanismos de manutenção da integridade e de reparação de danos eventualmente sofridos pelo cromossomo são realizados por uma região protetora localizada na extremidade de cada cromossomo: os telômeros! A Fig.1 mostra um par de cromossomos com seus telômeros coloridos em verde.

Figura 1: Imagem de um par de cromossomos e seu telômeros
Imagem extraída do site https://www.ufrgs.br/ciencia/

Voltando à contribuição científica de Carol durante seu doutoramento no laboratório de sua orientadora, Elizabeth Blackburn, temos um resultado fundamental: Carol descobre a presença de uma enzima denominada telomerase cuja função é reparar danos nos telômeros contribuindo assim para a manutenção de sua integridade e correta transmissão das informações essenciais para a gestação de seres da mesma espécie e pela manutenção do bom funcionamento do organismo como um todo. Falhas que podem ocorrer pela perda de fragmentos dos telômeros podem ser a causa mais importante do envelhecimento, assim como de moléstias degenerativas, como tumores, cujas células se reproduzem de forma descontrolada.  Após conquistar, em 1987, o PhD em Biologia Molecular pela Universidade da Califórnia, Berkeley, Carol aceitou uma bolsa de pesquisa no importante laboratório americano denominado Cold Spring Harbor Laboratory (CSHL), situado em Long Island, Nova York, fundado em 1890, onde o estudo do câncer é uma de suas áreas de pesquisa. Durante sua estadia no CSHL, Carol encontra Nathaniel Confort, historiador americano especializado em história da biologia, com quem se casa em 1992 e com quem tem dois filhos.

Quando Carol estava grávida de seu primeiro filho ela convenceu CSHL da importância de ter uma creche em suas dependências, o que permitiria que ela, e outras mulheres, dedicassem parte de seu tempo no atendimento de necessidades de seus filhos no próprio local de trabalho.

Figura 2: Carol Greider com seu marido e filhos.
Photo by Bob Stockfiel, the JHU Gazette, the newspaper of John Hopkins University, September 25, 2006/vol 36 No. 4

Em 1997 eles mudam para Baltimore quando Carol foi convidada a trabalhar na Universidade de John Hopkins como professora associada do Departamento de Biologia Molecular e Genética da Faculdade de Medicina John Hopkins e do qual atualmente é diretora.

Carol Greider in her laboratory at Johns Hopkins University, 2009 © JHU Gazette 2009. Photo: Will Kirk

Finalmente em 2009, 20 anos após sua descoberta da telomerase, ela recebe o prêmio Nobel em fisiologia e medicina juntamente com sua orientadora, Elizabeth Blackburn, e Jack Szostak por seus trabalhos ligados à determinação da estrutura sequencial dos aminoácidos nas proteínas.

Press conference with the 2009 Medicine Laureates: Carol Greider, Elizabeth Blackburn and Jack Szostak. © Prolineserver 2010 / Wikipedia/Wikimedia Commons (cc-by-sa-3.0)

Em paralelo à sua carreira científica, Carol Greider também desenvolveu atividades para promover mudanças nos laboratórios, de forma a torná-los mais atraentes para todos os candidatos, em particular para mulheres. Para tanto ela e Jason Skeltzer organizaram um workshop na CSHL com representantes das principais instituições científicas e organizações federais para discutir como aumentar a diversidade na força de trabalho em ciência, tecnologia e matemática. Ela afirma que todos se beneficiam quando problemas são encarados sob diferentes perspectivas, por homens, mulheres ou alguém que luta com deficiências como, por exemplo, dislexia.

Carol Grieder além do Prêmio Nobel recebeu outros prêmios tais como:

Em 2006 Prêmio Wiley de Ciências Biomédicas (em inglês: Wiley Prize in Biomedical Sciences)   Elizabeth Blackburn, Carol Greider.

Em 2006 Albert Lasker Award for Basic Medical Research junto com Elizabeth Blackburn e Jack Szostak.

Em 2007 Louisa Gross Horwitz Award com  Elizabeth Blackburn e Joseph G. Gall.

Em 2008 Prêmio Pearl Meister Greengard.

Em 2009 Paul-Ehrlich and Ludwig-Darmstaedter Award Junto com Elizabeth Blackburn .

Em 2009 Nobel Prize in Medicine (2009), com Elizabeth Blackburn e Jack Szostak.

Por seu notável exemplo de vida, pela superação de grave disfunção neurológica, pela constante dedicação à ciência e pelo envolvimento em prol dos direitos das mulheres de exercerem as mais diferentes profissões, Carol Grieder deve ser honrada e festejada como uma mulher admiravelmente resiliente em seus ideais. 

Fontes

1. History of Scientific Women: Carol Greider

https://scientificwomen.net/women/greider-carol-41

2. CSHL Stories and Media – Carol Greider: Nobel Prize-winning rogue biologist

https://www.cshl.edu/carol-greider-nobel-prize-winning-rogue-biologist/

3. Wikipedia – Informações sobre a Telomerase

https://pt.wikipedia.org/wiki/Telomerase

4. Nobel Prize in Physiology or Medicine 2009: Carol Greider

https://www.nobelprize.org/womenwhochangedscience/stories/carol-greider

5. Enciclopedia Britannica: Biografia de Carol Greider

https://www.britannica.com/biography/Carol-W-Greider

6. Manual MSD: Genes e Cromossomos

https://www.msdmanuals.com/pt/casa/assuntos-especiais/gen%C3%A9tica/genes-e-cromossomos

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