Bertha Maria Julia Lutz, bióloga e pioneira do Movimento Feminista no Brasil


Yvonne P. Mascarenhas
yvonne@ifsc.usp.br

Bertha Lutz (02/08/1894 – 16 /09/1976)

Antecedentes familiares

Seu pai, Adolfo Lutz, nasceu no Rio de Janeiro. Seus avós eram suíços e emigraram para o Brasil, onde viveram no Rio de Janeiro e tiveram vários filhos.  Devido a uma epidemia de cólera, a família decidiu retornar à Suíça quando Adolfo tinha apenas 3 anos, onde foi educado. Adolfo Lutz formou-se em Medicina na Universidade de Berna e retornou ao Brasil em 1881, numa época em que o país estava assolado por pandemias. Em 1893, aceitou um convite do governador do Estado de São Paulo para fundar e dirigir o Instituto Bacteriológico, dedicado ao estudo de doenças infecciosas, tendo permanecido no cargo até 1908. Em reconhecimento ao seu trabalho, em 26 de outubro de 1940, esse Instituto foi denominado Instituto Adolfo Lutz. No mesmo ano, aceitou um convite de Oswaldo Cruz para trabalhar no Instituto de Manguinhos, no Rio de Janeiro, onde permaneceu por 35 anos até a sua morte. Berta Lutz, um de seus 10 filhos, nasceu em 2 de agosto de 1894 em São Paulo. Estudou na França, graduando-se em 1918 em biologia na Universidade de Paris-Sorbonne e, logo em seguida, retornou ao Brasil e fez um concurso para o Museu Nacional. 

As atividades de Berta Lutz, entretanto, desenvolvem-se em duas áreas: uma científica e outra de caráter político, os dois grandes ideais de sua vida.

Bertha Lutz política

Em consequência de ter tido contato com os movimentos feministas da Europa e dos Estados Unidos, dedicou-se com grande empenho a estabelecer, no Brasil, as bases do feminismo. Em 1919, Bertha Lutz criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, com foco inicial na concessão do direito de voto às mulheres. Em 1922 a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher foi substituída pela Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF). Seus fins estavam explicitados em seus estatutos, no artigo 3.1:

1.  Promover a educação da mulher e elevar o nível da instrução feminina; 

2. Proteger as mães e a infância; 

3. Obter garantias legislativas e práticas para o trabalho feminino; 

4. Auxiliar as boas iniciativas da mulher e orientá-la na escolha de uma profissão; 

5. Estimular o espírito de sociabilidade e cooperação entre as mulheres e interessá-las pelas questões sociais e de alcance público; 

6. Assegurar à mulher os direitos políticos que a nossa Constituição lhe confere e prepará-la para o exercício inteligente desses direitos;

7. Estreitar os laços de amizade com os demais países americanos a fim de garantir a manutenção perpétua da paz e da justiça no Hemisfério Ocidental.

Em 1922, representando a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e o Museu Nacional, Bertha Lutz participou do Congresso Brasileiro de Ensino Secundário e Superior e defendeu a entrada de mulheres no Colégio Pedro II. Naquela época, o colégio era a principal instituição de ensino secundário do Rio de Janeiro e porta de entrada para o ensino superior. Mais tarde, em 1931, Bertha esteve presente na formatura da primeira aluna a receber o grau de bacharel naquela instituição.


Após a Revolução de 1930, o movimento pelo voto feminino alcançou a grande vitória por meio do Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, do presidente Getúlio Vargas, que garantiu o direito de voto às mulheres no País. É muito interessante notar que as mulheres brasileiras obtiveram o direito de voto antes das francesas.


Dois anos depois, Bertha participou do comitê elaborador da Constituição (1934) e garantiu às mulheres a igualdade de direitos políticos. Em 1936 assumiu o mandato de deputada, que durou pouco mais de um ano. As principais bandeiras de luta eram mudanças na legislação trabalhista relativas ao direito das mulheres ao trabalho, à luta contra o trabalho infantil, à licença-maternidade e à equiparação de salários e direitos entre homens e mulheres. Lutou sempre com grande idealismo até o golpe do Estado Novo em 1937 e o consequente fechamento do Congresso Nacional.

Bertha Lutz cientista 

Em paralelo às suas atividades políticas, Bertha teve também uma brilhante carreira científica. Estudou na França, graduando-se em biologia na Universidade de Paris-Sorbonne, em 1918. Trabalhou na área de zoologia, especializando-se em anfíbios. Ela foi responsável pela descoberta de uma nova espécie de sapo, o Paratelmatobius lutzii.  Logo em seguida, retornou ao Brasil e participou de um concurso para o Museu Nacional.

  Entre 1927 e 1930, foi assistente da Seção de Botânica do Jardim Botânico. Uma de suas grandes contribuições à ciência foi a catalogação de 4.400 espécies brasileiras. Além disso, ela contribuiu para a preservação da memória do trabalho de Adolfo Lutz em zoologia médica, parasitologia, veterinária, bacteriologia e botânica. 

No final de 1937, Bertha retornou ao Museu Nacional, onde assumiu a chefia do Setor de Botânica. Entre 1941 e 1944, participou de excursões científicas nos estados de São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro, a fim de coletar material de anfíbios e répteis. Exerceu o cargo de chefe do setor de botânica do Museu Nacional até se aposentar em 1965. 

Infelizmente, o acervo das atividades desenvolvidas por Bertha Lutz e de outros pesquisadores perdeu-se devido ao incêndio que destruiu grande parte do acervo do Museu Nacional em 2 de setembro de 2018.

Últimas atividades

No Ano Internacional da Mulher, em 1975, ela foi convidada pelo governo brasileiro a integrar a delegação do País no primeiro Congresso Internacional da Mulher, realizado na capital do México. Foi seu último ato público em defesa da causa feminina e da igualdade de gênero. Ela morreu no Rio de Janeiro, em 1976, com 82 anos.

Fontes

1. Maria Izabel Siciliano de Souza, Maria Ferreira Abdala-Mendes. A formação científica e profissional das mulheres no Brasil: A contribuição de Bertha Lutz, História da ciência e Ensino.

https://revistas.pucsp.br/index.php/hcensino/article/view/37166

2. Dados biográficos sobre Bertha Lutz

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bertha_Lutz

3. Espaço Ciência Viva

https://www.facebook.com/espacocienciaviva/posts/2414690808590446/

4. Gabriela Mendes; Celebrando Bertha Lutz – a bióloga brasileira que lutou pelo reconhecimento internacional da igualdade de gênero.

https://www.blogs.unicamp.br/cienciapelosolhosdelas/2020/01/24/celebrando-bertha-lutz-a-biologa-brasileira-que-lutou-pelo-reconhecimento-internacional-da-igualdade-de-genero/

5. Jaime Larry Benchmol, Adolpho Lutz: um esboço biográfico, Hist.cienc.saude-Manguinhos vol.10 no. 1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2003

https://doi.org/10.1590/S0104-59702003000100002

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